Autor: Drauzio Varella
A espécie humana sempre comeu
carne. Nas cavernas, nossos antepassados davam preferência a ela, como
concluíram os estudos de suas arcadas dentárias. É
provável que o homem só se conformasse com outros alimentos quando a
caça rareava. Guiado pelo instinto do paladar, corria atrás da carne
por seu alto valor calórico: um grama de gordura produz 9
calorias, um grama de açúcar ou proteína, 4 calorias.
Por milhões de anos, mesmo
quando o homem buscou na agricultura as calorias necessárias para manter
a família, a preferência pela carne resistiu. E assim
permanece. Não é fácil subverter ordens estabelecidas em milhões de
anos. A genética é mãe castradora.
A desnutrição sempre foi endémica. Em todas as civilizações conhecidas, comida abundante e
variada era privilégio. Há apenas um século e meio, a batata da
Irlanda foi dizimada por uma praga, e um milhão de pessoas morreram
de fome. O número de mortos dá idéia da monotonia da dieta irlandesa da
época. Na Europa, a fome resistiu à passagem da Segunda
Guerra; era preciso ser rico para comer carne todo dia. Mesmo hoje,
fartura de alimentos é privilégio de um ou outro país.
O passado de fome cronica
moldou o consumo de energia da espécie humana. A pressão seletiva
favoreceu a sobrevivência dos que comiam o máximo que aguentavam,
toda vez que encontravam comida. Entre eles, levaram vantagem
reprodutiva os que tinham capacidade de armazenar, sob a forma de
gordura, as calorias ingeridas em excesso. Ser dono de uma reserva
adiposa ao redor do corpo era decisivo quando chegavam as vacas
magras. Os magrinhos ficavam inferiorizados na hora de enfrentar jejuns
prolongados. Num mundo de predadores, o caçador
enfraquecido vira caça no dia seguinte.
A seleção natural só tem olhos
para o indivíduo. A ela não interessa o futuro de qualquer espécie.
Haja vista quantos milhões delas acompanharam os
dinossauros nas extinções em massa. Não existe grandiosidade nos
desígnios da evolução. Ela segue curso inexorável, mero resultado da
soma aritmética de pequenas conquistas individuais que
conferem micro-vantagens na hora da reprodução.
A evolução não moveu um dedo
para impedir que o homem moderno, filho de caçadores e coletores que se
matavam por comida, inventasse a poltrona e o
disque-pizza. Como resultado dessa rutura com a tradição de
escassez permanente de alimentos vieram a obesidade, diabetes,
hipertensão e os enfartes do miocárdio.
Maior incidência de enfartes
Depois da Segunda Guerra, nos
países industrializados, foi descrita uma epidemia de ataques cardíacos
em homens de 50 anos e mulheres na menopausa. Essas
mortes criaram um clamor público: o que estaríamos fazendo de errado
com nossas vidas para merecer tal punição?
Bode expiatório
Habituados a interpretar fenómenos biológicos com lógica religiosa, os homens associaram o prazer
ao pecado. Sexo e paladar, os maiores prazeres conhecidos,
são os principais suspeitos de qualquer doença. Como no caso dos enfartes não parecia razoável culpar o sexo, praticado à larga pelo
homem desde tempos ancestrais, a suspeita caiu sobre a
alimentação.
Estávamos nos anos 60, era da contra-cultura, da valorização da vida campestre em oposição à sociedade
industrial. Era moda acreditar na alimentação
vegetariana produzida sem fertilizantes químicos como condição de
saúde. A suspeita, então, caiu em cheio sobre a carne vermelha, o
alimento preferido pela maioria das pessoas. Afinal, gostamos
de peixe, mas precisa ser bem feito; e de frango, dependendo do
tempero; mas carne vermelha, de qualquer jeito é bom. Não é preciso
ciência no preparo. Basta pôr na brasa e jogar sal grosso. O
cheiro de peixe na panela faz perder o apetite, o de frango é
neutro, mas o de carne junta saliva na boca. É reflexo ancestral.
Descoberta surpreendente
Ao redor de 1785, Edward
Jenner, o descobridor da vacina contra a varíola, ao autopsiar um
paciente morto após dores no peito seguidas por um ataque cardíaco
fulminante, notou algo: “Depois de examinar as partes mais
importantes sem encontrar nada que pudesse ser responsável pela morte
súbita ou pelos sintomas que a precederam, estava fazendo um corte
na base do coração quando o bisturi bateu em algo tão duro e
granuloso que fez um dente na lâmina. Olhei para o teto, que estava
velho e se desprendia, achando que um pedaço de gesso tivesse
caído de lá. Mas, examinando melhor, pude ver a causa verdadeira: as
coronárias tinham se transformado em canais ósseos”.
Estava descoberta a causa das
dores no peito (anginas) e dos enfartes do miocárdio: as placas
endurecidas que obstruem as coronárias, as artérias que irrigam
o músculo cardíaco.
Colesterol e Arterosclerose
Em 1904, o biólogo F. Marchand
usou o termo arterosclerose para definir a natureza das placas
obstrutivas. Em 1910, o bioquímico A. Windaus demonstrou que
essas lesões continham 6 vezes mais colesterol livre do que a parede
da artéria normal, e 20 vezes mais colesterol esterificado.
Em 1912, um médico da armada
russa - Nikolai Anichkov - induziu, pela primeira vez, arterosclerose em
coelhos alimentando-os com gema de ovo e colesterol
puro. Depois de algumas semanas de dieta, a aorta de 90% dos animais
estudados começou a exibir as mesmas placas acinzentadas das coronárias
das vítimas de enfarte. Como 10% dos coelhos nessa
dieta nunca desenvolviam placas, Anichkov concluiu acertadamente que
o colesterol não era o único responsável pelo aparecimento delas. Em
cachorros e ratos, ele não repetiu resultados
semelhantes. Esses animais não desenvolviam placas nas artérias por
mais colesterol que ingerissem.
Não seria sensato pensar que o
coelho, animal vegetariano, desenvolvesse aterosclerose por não estar evolutiva-mente habituado a lidar com colesterol na
dieta? E que ratos e cachorros, animais que comem de tudo, têm longa
convivência com o colesterol e, portanto, mais resistência à formação
de placas? Detalhe tão relevante passou despercebido
para Anichkov e para a maioria dos cientistas que vieram depois
dele.
Bom e mau colesterol
Os trabalhos de Anichkov,
publicados em russo, ficaram esquecidos até os anos 50 quando foi
descoberta a ultra-centrífuga, aparelho que gira em velocidades
vertiginosas, a ponto de precipitar em camadas, por ordem de
densidade, as gorduras e proteínas colocadas em seu interior. Com a ultra-centrífuga, o bioquímico americano John Gofman publicou, na
revista Science, um estudo mostrando que a gordura do sangue dos
coelhos alimentados com colesterol era composta por duas frações
principais: uma que ia para o fundo do tubo de ensaio
centrifugado, e outra, de menor densidade, que ficava na superfície.
Estavam descobertos o HDL e o LDL, respetivamente.
Gofman percebeu, ainda, que
essa fração LDL encontrava-se elevada nos coelhos que desenvolviam
placa, mas nos 10% de animais que não a formavam, apesar da
dieta rica em colesterol, a maior parte da gordura era transportada
sob a forma de HDL. Havia, então, um colesterol “bom” (o HDL) e outro
“ruim” ( o LDL).
Anos depois, o mesmo grupo
usou a centrífuga mais potente da época para separar as frações de
colesterol contidas em dois grupos de homens. No primeiro,
foram estudados indivíduos que haviam tido e se recuperado de
ataques cardíacos. No segundo, indivíduos saudáveis. Os autores
verificaram que os níveis de LDL eram bem mais altos nos homens
“cardíacos” e os de HDL, nos normais. Exatamente como nos coelhos,
concluíram.
A descoberta do LDL como
agente da arterosclerose aparentemente explicava por que algumas pessoas
têm ataque cardíaco apesar de apresentar níveis normais de
colesterol total. Entretanto, como o custo das ultra-centrífugas para
separar frações de colesterol eram proibitivos, pouca atenção foi dada
ao HDL e ao LDL no sangue humano, por mais de uma
década. Nos anos 60, quando surgiram métodos químicos para dosar
frações de colesterol sem necessidade de ultra-centrifugação, a
determinação dos níveis de HDL e LDL virou
rotina.
Para completar o cenário no
qual eclodiria a guerra ao colesterol, prestes a ser decretada no mundo
industrializado, é fundamental citar outros dois
trabalhos realizados nos Estados Unidos.
Em 1952, o grupo do
especialista em nutrição, L. Kinsey, demonstrou que dietas compostas de
vegetais e baixos teores de gordura animal reduziam o colesterol
na maioria dos seres humanos. Em seguida, um grupo chefiado por E.
Ahrens, da Universidade Rockfeller, foi mais longe: as gorduras vegetais
reduziam o colesterol graças à insaturação de suas
moléculas. Os animais aumentavam seus valores por terem moléculas
saturadas ( com mais átomos de hidrogênio).
Guerra à gordura animal
Os ingredientes básicos
estavam reunidos para começar uma das maiores confusões intelectuais
sobre a saúde do homem do século XX. Se existia um colesterol
“bom” e outro “mau”, as gorduras deveriam ser divididas em “boas”
(insaturadas, derivadas principalmente dos vegetais e dos peixes) ou
“más” ( saturadas, como as da carne vermelha e dos derivados
de leite).
Esses trabalhos tiveram enorme
impacto. Como a liderança mundial da ciência americana já era incontestável nessa época, a crença nas conclusões citadas se
disseminou. A carne vermelha, os laticínios e a gema de ovo foram
execrados. Eram os assassinos do homem moderno! A indústria dos
alimentos de baixos teores de gordura animal
floresceu.
Conclusões precipitadas
Quando analisamos as
informações científicas que serviram de base para aconselhar mudanças
tão drásticas no estilo de alimentação, no entanto, ficamos
absolutamente surpresos: elas não permitem tirar as conclusões que
foram apregoadas!
Embora 50% dos enfartes do
miocárdio ocorram em pessoas com colesterol normal, não há dúvida de que
pessoas com níveis mais altos de LDL no sangue correm
risco maior de doença coronária. Está demonstrado, também, que a
redução do consumo de gordura animal faz cair os níveis de LDL. O que
não está comprovado é que ingerir menos gordura animal
diminua a probabilidade de ter ataque cardíaco ou de viver mais
tempo.
Em outras palavras: até hoje,
nenhum estudo epidemiológico para avaliar as consequências de uma dieta
rica ou escassa em gordura animal na longevidade humana
ou na prevalência de enfarte do miocárdio conseguiu demonstrar
relação de causa e efeito.
Por exemplo, o célebre Nurse´s
Health Study acompanhou, por 20 anos, 50 mil enfermeiras do país que
respondiam questionários periódicos sobre hábitos
alimentares e problemas de saúde. O estudo, conduzido pela Escola de
Saúde Pública de Harvard, envolve o maior número de participantes
acompanhados até hoje em qualquer trabalho sobre o tema, por
tão longo período de tempo e com tanto rigor.
A quantidade de gordura
presente nas refeições diárias das 50 mil escolhidas foi tabulada com as
enfermidades apresentadas por elas no período. Os resultados
não demonstraram relação entre o número de calorias ingerido sob a
forma de gordura animal e a incidência de doença cardíaca. Esses dados
obtidos pelo grupo de Harvard foram confirmados em dois
outros estudos: o Health Professionals Follow-up Study e o
Nurses´Health Study II. Os três estudos juntos envolveram 300 mil
pessoas seguidas por mais de dez anos. As conclusões são as
mesmas:
1) Dietas ricas em gorduras mono-insaturadas (como o óleo de oliva) reduzem o risco de doença cardíaca;
2) Dietas ricas em gorduras
saturadas (como a carne vermelha) aumentam muito pouco o risco de doença coronária, quando comparadas com dietas ricas em
carboidratos, como pão, macarrão e doces. Outra surpresa dos
cientistas foi a constatação de que as gorduras presentes na margarina
são bem menos saudáveis do que as contidas na
manteiga.
De hipótese a dogma
Os três estudos citados
custaram ao National Institute of Health (NIH) que os financiou, US$100
milhões. Apesar do gasto, nenhuma agência de saúde do governo
deu publicidade aos resultados finais, muito menos sugeriu que a
orientação geral de cortar a gordura animal devesse ser revista.
A respeito dessa atitude
oficial, Walter Willet, em entrevista à Science, revista oficial da
Academia Americana de Ciências, disse: “É escandaloso”. E
questionou a política das agências de saúde americanas: “Agora, eles
dizem que há necessidade de provas de alto valor científico para
derrubar as recomendações vigentes de cortar gordura na
dieta, o que é irónico, porque nunca tiveram provas de valor para
estabelecê-las”.
Num dos artigos mais completos
sobre o tema, na Science de 30 de março de 2001, o autor, Gary Taubes,
um dos editores da revista, afirma: “A convicção de que
gordura na dieta mata, e sua evolução de hipótese a dogma, é um
exemplo no qual políticos, burocratas, os mídia e o público desempenharam
o mesmo papel que os cientistas e a
ciência.”
Taubes analisou a incidência
de doença cardíaca nos Estados Unidos nos últimos 30 anos. Desde o
início da década de 70, quando foram divulgadas as
recomendações oficiais para reduzir a ingestão de gordura animal no
país, a mortalidade por ataques cardíacos de fato caiu. Como as calorias
derivadas da gordura animal representavam 40% do total
de calorias ingeridas nos anos 1980 e hoje correspondem a 34%, as
autoridades da área de saúde insistem em que a redução das mortes deva
ser atribuída aos novos hábitos alimentares
americanos.
Uma análise mais detalhada
desses números, no entanto, foi publicada na revista de maior circulação
mundial entre os clínicos, The New England Journal of
Medicine, em 1988. Nela, os autores atribuem a queda dos índices de
mortalidade por doenças cardíacas à melhora dos cuidados médicos no
tratamento, não à redução do número de casos da
doença.
As estatísticas da American
Heart Association dão suporte à observação anterior: entre 1979 e 1996, o
número de procedimentos empregados no tratamento de
doenças cardíacas aumentou de 1,2 para 5,4 milhões de
intervenções/ano. Difícil atribuir à diminuição de gordura animal a
responsabilidade pela queda dos índices de mortalidade, quando pontes de
safena se tornaram rotineiras.
Uma das ideias a consolar as
autoridades americanas que estabeleceram as normas dietéticas atuais foi
a de que um grama de gordura produz 9 calorias,
enquanto a mesma quantidade de carboidrato ou proteína produz 4.
Então, mesmo que a recomendação de reduzir gordura animal falhasse na
diminuição da incidência de doença cardíaca, ainda estaria
fazendo um bem, pensaram elas: menos carne vermelha, menos calorias
ingeridas, menor o número de casos de obesidade, hipertensão e diabetes.
Foram ingénuas. Não levaram em
conta a natureza humana. A retirada de um alimento altamente calórico
da dieta não assegura necessariamente redução do número
total de calorias ingeridas, porque ele pode ser substituído por
outros menos calóricos, mas ingeridos em quantidades maiores
(carboidratos, principalmente). A quantidade de energia diária que o
corpo exige para funcionar é decidida através de mecanismos
inconscientes e cobrada prosaicamente de cada um de nós na forma de
fome. Dominar o apetite é tarefa inglória.
No já citado estudo, entre as
50 mil enfermeiras, metade foi exaustivamente orientada a consumir uma
dieta na qual as calorias derivadas de gordura não
ultrapassassem 20% do total ingerido diariamente. Depois de três
anos nesse regime espartano, as mulheres de fato haviam perdido peso: um
quilo, em média.
Nos últimos 20 anos, enquanto o
consumo de gordura animal caiu 6% (de 40% para 34%) na população
americana, a prevalência de obesidade aumentou de 14% para
mais de 22%. Ao lado dela, cresceram os casos de diabetes e
hipertensão arterial. Esses dados conduzem a estas suspeitas:
1) Será que dietas mais pobres em gordura não levariam à obesidade?
2) A diminuição da atividade física provocada pelo aumento da massa corpórea não aumentaria o risco de doença cardíaca?
3) Não estaria no aumento do
número de casos de diabetes e hipertensão ligados à obesidade parte da
explicação para os ataques cardíacos do homem
moderno?
A questão está longe de ser
resolvida. Dizer que uma dieta pobre em gordura deve ser adotada porque
se não prolongar a vida, mal não fará, não tem fundamento
científico. E pode nem ser verdade.
O metabolismo do colesterol
Como tantos médicos, passei
anos aconselhando meus pacientes a reduzirem os níveis de colesterol
pela dieta alimentar. A experiência foi frustrante.
Descontados os casos esporádicos, só com grande esforço pessoas
muito disciplinadas conseguiram baixar as taxas de 10% a 20%, no máximo.
Enquanto isso, outros se esbaldam e o colesterol não sobe.
Vi um senhor que comia uma dúzia de ovos por dia havia mais de
trinta anos e tinha colesterol total de 160 (pelos padrões atuais,
recomenda-se que sejam mantidos valores abaixo de 200). Encontrei
uma mulher de 40 anos com colesterol de 280. Quando lhe disse que
precisava reduzir gordura animal, respondeu-me que era vegetariana havia
doze anos.
Isso quer dizer que o
metabolismo do colesterol pouco respeita as virtudes da pessoa. Nossa
capacidade de interferir com a concentração de gordura no sangue
é limitada pelos fatores genéticos. Tanto que mesmo a propalada
influência do colesterol na incidência de doença coronária é
simplesmente discreta.
Na referida matéria da
Science, Gary Taubes relaciona seis estudos publicados na década de
1980, que ilustram as observações anteriores. Quatro deles,
realizados nas cidades de Honolulu, Chicago, Framingham e em Porto
Rico, compararam o tipo de dieta com a incidência de doença coronariana.
Nenhum demonstrou que dietas de baixo conteúdo de
gordura animal reduzissem o número de ataques cardíacos ou
aumentassem a longevidade.
Um quinto estudo, Multiple
Risk Factor Intervention Trial (MRFIT), custou US$115 milhões. Os
participantes foram aconselhados a adotar simultaneamente várias
medidas para reduzir o risco de doença cardíaca: deixar de fumar,
controlar hipertensão com medicamentos e cortar gordura da dieta. A
análise dos dados finais mostrou que a redução de gordura não
fez qualquer diferença na incidência de doença coronária, mesmo
entre hipertensos e fumadores. Ao contrário: entre os que adotaram dieta
com menos gordura, a mortalidade geral (todas as causas
reunidas) foi mais elevada.
Ação de medicamentos específicos
O sexto estudo começou em 1984
e foi conduzido na Universidade da Califórnia a um custo de US$140
milhões - o LRC Coronary Primary Prevention Trial. Nele,
foram selecionados apenas homens de meia-idade com colesterol
elevado (valores mais altos do que os encontrados em 95% da população
geral). Os participantes foram divididos em dois grupos: o
primeiro recebeu um medicamento para diminuir o colesterol, a
colestiramina; o segundo, comprimido de talco (placebo). Os resultados
foram os seguintes:
1) A colestiramina causou redução significante dos níveis de colesterol;
2) O medicamento reduziu o número de ataques cardíacos de 8,6% no grupo-placebo para 7,0% nos tratados;
3) A administração da droga
fez cair a mortalidade por infarto do miocárdio: de 2,0% no
grupo-placebo para 1,6% no grupo tratado.
Por incrível que pareça, a
demonstração de que reduzir os níveis de colesterol por uma intervenção
química como essa (que provocou 0,4% de diminuição na
mortalidade) foi extrapolada para o teor de gordura na dieta. Se
abaixar o colesterol à custa de colestiramina fez cair a incidência de
doença coronária, reduzir seus níveis com dietas pobres
em gordura terá o mesmo efeito, disse o coordenador administrativo
do estudo.
A repercussão nos Estados
Unidos foi imediata. Veio na forma de campanhas públicas e numa matéria
de capa da revista Time intitulada: “Perdão, é verdade. O
colesterol mata”. A conclusão, resultante de meias- verdades
científicas, ganhou a imprensa.
Com o advento das estatinas,
drogas capazes de reduzir dramaticamente os níveis de colesterol,
estudos confirmaram que o uso desses medicamentos diminui
discretamente a incidência de doença coronária e prolonga a vida
daqueles que têm risco alto de enfarte do miocárdio.
Qualquer pessoa com um mínimo
de discernimento científico, entretanto, sabe que a eficácia de uma
abordagem medicamentosa sobre qualquer parâmetro bioquímico
do sangue jamais pode ser extrapolada para intervenções dietéticas
sem a realização de estudos comparativos que envolvam milhares de
participantes acompanhados criteriosamente durante muitos
anos, para que o número de eventos finais adquira significância
estatística.
O NIH calcula que um estudo com tais características custaria pelo menos US$1 bilião, quantia que nenhum país quer investir.
Dados epidemiológicos
Muitas das ideias, que deram
origem às normas para cortar gordura animal na dieta, nasceram da
epidemiologia comparada. Desde os anos 1950, sabemos que
finlandeses e escoceses, por exemplo, que ingerem dietas ricas em
leite e carne vermelha, são vítimas de altos índices de ataques
cardíacos. A dieta tradicional japonesa, rica em peixe, teria
efeito protetor e explicaria a baixa incidência de ataques cardíacos
no Japão.
Tal lógica, no entanto, sempre encontrou sérias contradições:
1) Os franceses, por exemplo,
consomem muita manteiga, creme de leite, queijos e carne, mas apresentam
baixos índices de doença coronária. Esse fenómeno, o
“paradoxo francês”, tem sido atribuído ao consumo de vinho tinto,
fatores genéticos, tamanho das porções da cozinha francesa, etc.;
2) Mais contundente do que o
paradoxo francês, ainda, é o caso dos povos do sul da Europa, que vivem
no Mediterrâneo. Com a melhora das condições económicas
após da Segunda Guerra, essas populações fizeram como outras na
mesma situação: aumentaram o consumo de carne, leite e queijos. O que
aconteceu com a mortalidade por doença cardíaca? Diminuiu!
Caiu proporcionalmente ao crescimento do consumo de gordura. O mesmo
está acontecendo com a ocidentalização atual da dieta no Japão, ao
contrário do que se supôs;
3) Num trabalho realizado na
cidade francesa de Lyon, 605 pessoas que sobreviveram a ataque cardíaco
prévio foram tratadas com medicamentos para reduzir os
níveis de colesterol e divididas em dois grupos de acordo com a
dieta adotada. O primeiro foi aconselhado a manter uma dieta semelhante à
recomendada aos americanos, com redução drástica da
quantidade de gordura animal. O segundo, a adotar uma dieta do tipo
mediterrâneo: mais cereais, pão, legumes e frutas, peixe, sem exagero de
carne vermelha. Nas duas dietas, o conteúdo de gordura
animal ingerido diariamente variou de forma significativa: os que
adotaram o padrão mediterrâneo consumiram em média quantidades maiores.
Apesar disso, os níveis de colesterol total, HDL e LDL,
permaneceram idênticos. Quatro anos mais tarde, os resultados
indicavam a ocorrência de 44 ataques cardíacos na dieta americanizada,
contra 14 na dieta mediterrânea.
Classicamente, no caso dos
povos do Mediterrâneo, o benefício tem sido atribuído ao uso do óleo de
oliva. Essa conclusão foi aceita sem questionamento pelos
médicos e divulgada para o grande público como verdade científica.
Tanto que a maioria das dietas para reduzir colesterol prescreve uma ou
duas colheres de azeite de oliva diárias. A influência
do óleo de oliva na prevenção de enfarte, porém, está longe de ser
esclarecida. Voltemos ao artigo da insuspeita Science. Dimitrios
Trichopoulos, epidemiologista de Harvard, sugere que o paradoxo
dos povos mediterrâneos talvez esteja além do óleo de oliva e
pergunta: para que esses povos usam o azeite? Para temperar saladas e
cozinhar legumes. Como essas populações ingerem cerca de meio
quilo de vegetais por dia, em média, quem garante que não sejam eles
os responsáveis pela proteção?
Pelo mesmo raciocínio
poderíamos perguntar se finlandeses e escoceses, povos que vivem em
lugares gelados, inóspitos para a produção de vegetais, não teriam
tantos infartos pela falta destes na dieta, e não pelo excesso de
gordura.
Gordura X Carboidratos
Gary Taubes, no site do
Departamento de Agricultura americano, na seção Nutrient Database for
Standard Reference, encontrou a composição de uma chuleta
(T-bone) rodeada por uma camada generosa de meio centímetro de
gordura. De acordo com os dados, depois de grelhada a chuleta é composta
por porções iguais de gordura e proteína: metade de cada. O
autor caracteriza assim a composição da parte gordurosa da chuleta:
“51% dela é gordura mono-insaturada, da qual virtualmente tudo é o
saudável ácido oléico - o mesmo do óleo de oliva; 45% é
gordura saturada, pouco saudável, mas um terço dela é ácido
esteárico, componente no mínimo inofensivo. Os restantes 4% do total são
gordura poli-insaturada, que também melhora os níveis de
colesterol”.
A análise da composição deixa
claro que uma chuleta não chega a ser uma arma tão mortal quanto nos
fizeram crer. Taubes faz as contas: “Bem mais do que
metade - e talvez até 70% - do conteúdo gorduroso contribuirá para
melhorar os níveis de colesterol. Os 30% restantes provocarão aumento do
LDL (colesterol “mau”), mas também aumentarão o “bom”
colesterol (HDL).
“Se em lugar da chuleta a
pessoa ingerisse pão, macarrão ou batata”, continua Taubes, “seus níveis
de colesterol ficariam piores, embora nenhuma autoridade
de nutrição tenha coragem de dizer isso publicamente.
Neste momento, a relação
gordura versus carboidrato na dieta ocupa posição central no debate
entre pesquisadores. A célebre pirâmide nutricional que as
autoridades de vários países - entre eles o Brasil - adotaram, com a
base larga para indicar os vegetais que devem ser ingeridos em
abundância, a parte intermediária referente aos carboidratos
que podem ser ingeridos com liberalidade e o topo da pirâmide que
corresponde à gordura animal a ser consumida de forma muito restrita,
tem sido questionada. Alguma coisa precisamos comer. Se não
for carne, o que será?
A lógica é cristalina:
dificilmente substituímos o bife do jantar por tomates ou cenouras. A
carne costuma ser trocada por carboidratos. Dietas com baixo
teor de gordura animal quase sempre são fartas em pão, macarrão,
tortas e doces.
Por razões mal conhecidas,
temos mais dificuldade para limitar a ingestão de carboidratos do que a
de gordura. Não é fácil encontrar alguém capaz de comer
duas picanhas no almoço, mas pão, macarrão e doce ingerimos em
quantidades muito maiores. E, pior, digerimos esses alimentos bem mais
rapidamente.
Na digestão dos carboidratos, o
pâncreas é solicitado a produzir insulina para quebrá-los em açúcares
mais simples que vão ser estocados nos depósitos
naturais do organismo. Enquanto os açúcares contidos em frutas e
vegetais aparecem na circulação sanguínea em concentrações que aumentam
lentamente à medida que vão sendo absorvidos pelo tubo
digestivo, alimentos como pão, macarrão, arroz e doces dão origem a
picos na circulação imediatamente depois da ingestão.
Tais picos súbitos de
carboidratos obrigam o pâncreas a produzir quantidades excessivas de
insulina para quebrá-los e estocá-los rapidamente. Uma vez
armazenados, a energia associada a eles não está mais disponível, e o
corpo sente fome outra vez.
Além de aumentar o risco de
diabetes pela estimulação exagerada do pâncreas, dietas com alto
conteúdo de carboidratos provocam aumento de triglicéridos e de
LDL (o “mau” colesterol), e redução dos níveis de HDL. Esta tríade
de eventos bioquímicos é conhecida como resistência à insulina (ou
síndrome X) e está intimamente ligada ao aumento do risco de
doença coronária.
Tiro pela culatra
Assim, fica claro que as
recomendações atuais para evitar gordura animal nas refeições são, no
mínimo, desprovidas de fundamento científico. Mais grave,
podem induzir a parcela da população com acesso ilimitado aos
alimentos a ingerir quantidades maiores de carboidratos, que podem ser
responsáveis pelo aparecimento de diabetes nos geneticamente
predispostos, aumento de triglicéridos e de LDL, redução do HDL e,
agora sim, aumento do risco de morrer de ataque cardíaco.
O enfarte do miocárdio é
exemplo clássico de patologia multi-fatorial. Sua incidência depende
principalmente da herança genética e de vários fatores de risco:
sexo, idade, tabagismo, hipertensão, obesidade, diabetes, vida
sedentária, níveis de colesterol e triglicéridos, além do stresse da
vida urbana. É ingenuidade imaginar que a simples eliminação
ou redução de um único componente da dieta interferira no risco de
sofrer de uma enfermidade assim complexa.
São tantos os mal-entendidos
nessa área, que mesmo a existência atual dessa epidemia de enfartes pode
ser questionada. Quem garante que esse acontecimento é
recente, se nos séculos que nos precederam as pessoas morriam de
doenças infecciosas muito antes de atingir 50 anos? E as poucas que
viviam mais, que tipo de assistência médica recebiam? Existe
algum estudo que permita comparação da mortalidade por doença
cardíaca entre o século passado e o atual?
Implicações diretas e indiretas
A questão do colesterol divide
os cientistas atuais e envolve interesses económicos. Basta pensar na
quantidade de alimentos com baixos teores de gordura
oferecidos. Ou no custo do atendimento médico relacionado com o
controle policialesco do colesterol. Ou, ainda, no interesse económico
gerado pelas estatinas, drogas utilizadas na clínica para
reduzir os níveis de colesterol, que rendem US$ 4 biliões por ano em
vendas apenas no mercado americano.
As mais rígidas intervenções
dietéticas não costumam provocar queda superior a 10% nos níveis de LDL -
enquanto as estatinas reduzem 30%, mesmo com dietas
permissivas. Sendo assim, por que não considerarmos desprezível o
impacto da dieta em pessoas com níveis de LDL normais ou pouco acima da
normalidade?
Para os que apresentam LDL
elevado não seria sensato medicá-los, permitir uma dieta mais humana e
recomendar que larguem de fumar, percam peso, controlem a
pressão, aumentem a atividade física e reduzam o stresse diário?
A redução de gordura na dieta,
além de estimular o consumo de carboidratos com provável piora do
perfil lipídico, pode interferir com mecanismos bioquímicos
muito importantes e mal conhecidos. Por exemplo, pessoas com
colesterol total muito baixo (abaixo de 160) apresentam risco maior de
hemorragia cerebral. E, mais grave, quanto mais abaixo desse
nível estiver o colesterol maior a chance de morrer por outras
causas.
O citado E. Ahrens, autor de
trabalhos fundamentais a respeito do metabolismo do colesterol, diz que
comer menos gordura pode provocar alterações profundas
no corpo, muitas das quais nocivas. O cérebro, por exemplo, é 70%
gordura, que serve basicamente para abrigar os neurónios.
O próprio colesterol e outras
gorduras são componentes essenciais das membranas das células. Mudanças
bruscas na proporção de gorduras saturadas e
insaturadas na dieta podem modificar a composição dessas membranas.
Essas alterações interferem com os mecanismos de transporte de todas as
substâncias que entram ou saem da célula: fatores de
crescimento, hormônios, bactérias, vírus e agentes cancerígenos.
Como consequência, da composição gordurosa da membrana celular dependem
processos como nutrição, resposta imunológica, produção de
hormônios, condução de estímulos através dos neurónios,
envelhecimento e apoptose, a morte celular programada.
Recomendações necessárias
Como lidar com informações tão contraditórias? À luz dos conhecimentos atuais, é mais sensato pensar o seguinte:
1) Aqueles com LDL-colesterol
muito elevado provavelmente se beneficiem do corte no consumo de gordura
animal. As recomendações oficiais são de que, neles, o
consumo de calorias derivadas da gordura não ultrapasse 10% do total
de calorias ingeridas. Não esquecer, no entanto, que uma interferência
dietética dessa radicalidade costuma abaixar apenas 10%
os níveis de LDL, o que pode não ser suficiente para colocar a
pessoa fora de risco. Se alguém com 250 de LDL faz uma dieta
vegetariana, e esse número cai para 225, o risco persiste apesar da
queda. Nesse tipo de situação parece mais sensato usar medicamentos
que reduzem as taxas de LDL em 30% e permitir certa liberalidade
dietética.
2) Para a grande maioria das
pessoas portadoras de níveis normais ou pouco aumentados de LDL, é
fundamental deixar claro que o impacto dos níveis de
colesterol no risco de doença cardíaca é pequeno. O efeito da dieta
nos níveis de colesterol também. Não há demonstração científica de que
se essas pessoas cortarem ou acrescentarem gordura
animal na dieta, terão maior ou menor risco de enfarte, ou de morrer
mais cedo.
3) Embora não haja respostas
definitivas, vale a pena apostar numa dieta rica em vegetais, que talvez
ajude a prevenir ataques cardíacos. Se não o fizerem,
pelo menos são alimentos ricos em micronutrientes essenciais, ajudam
o funcionamento do aparelho digestivo e têm conteúdo calórico mais
baixo.
É importante lembrar que
reduzir o total de calorias ingeridas parece ser, em toda a escala
animal, a única estratégia capaz de retardar o envelhecimento e
aumentar a longevidade. O corpo exige um número mínimo de calorias
diárias, não interessa se retiradas da cenoura ou do bacon.
Uma dieta sem excesso de
calorias ajuda a prevenir diabetes, hipertensão, obesidade, resistência à
insulina, reumatismo, impotência sexual, ataque cardíaco,
derrame cerebral, câncer e outras doenças degenerativas.